quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Senado para quê?


Ensaio deRoberto Pompeu de Toledo, publicado na revista Veja (edição 2026, de 19 de setembr de 2007

Senado para quê?


Eis uma boa hora para repensar uma
casa que, além de inútil, pode ser malsã

Muitos países vivem sem Senado e não são menos felizes, ou mais infelizes, por causa disso. Israel é um bom exemplo. Portugal é outro. São países que adotam o chamado sistema "unicameral", o do Poder Legislativo sediado em uma única casa, a Câmara (ou Assembléia) dos Deputados. Há, na teoria, argumentos pró e contra o unicameralismo ou o bicameralismo. No Brasil, a velhos argumentos contra a existência do Senado, somou-se, na semana passada, um novo. Os velhos argumentos são:

• O Senado torna o Poder Legislativo repetitivo e lento. O processo de uma lei passar pela Câmara, depois ir para o Senado, depois voltar para a Câmara se houver modificação no Senado, e depois até talvez voltar para o Senado se houver modificação na Câmara, produz cansaço e exasperação. No meio do caminho, perde-se o interesse e arrisca-se comprometer a oportunidade da lei. Quando se tem em conta que, em cada casa, o projeto passa por diferentes comissões especializadas, o cansaço e a exasperação crescem. As comissões existem para peneirar as propostas, examinando-as sob diversos pontos de vista. Com isso, instala-se um processo de revisão que torna redundante o "poder revisor" que se atribui ao Senado.

• A existência de duas casas legislativas resulta em concorrência de uma contra a outra. Muitos são os exemplos de rivalidade nociva entre Câmara e Senado. Fiquemos em um, recente: a instalação das chamadas CPIs "do apagão aéreo". Como não houve acordo para criar uma comissão mista (as vaidades são muitas, e a tela da televisão é pequena), criaram-se duas, uma no Senado e outra na Câmara. Resultado: duplicação de depoimentos, conclusões discordantes, desperdício de energia e perda de credibilidade.

• A especificidade do Senado dilui-se no sistema brasileiro. A especificidade do Senado é representar os estados, enquanto a Câmara representa o povo. No Senado, os estados são representados por igual, à razão de três senadores cada um. Na Câmara, um estado será tão mais representado quanto maior for sua população. Isso na teoria. Ocorre que, pela legislação brasileira, há um número mínimo (oito) e um máximo (setenta) de deputados por estado. Isso faz com que a população de estados pequenos seja super-representada e a dos grandes sub-representada. Roraima, com 400.000 habitantes e oito deputados, tem um deputado para cada 50.000 habitantes, enquanto São Paulo, com 40 milhões de habitantes e setenta deputados, tem um para cada 570.000. A população de São Paulo vale, na Câmara dos Deputados, onze vezes menos do que a de Roraima. Tal sistema existe, segundo seus formuladores, para proteger os estados menores e tornar mais equitativa, na Câmara, a presença das diversas unidades federativas. Ora, não é o Senado a casa da representação equitativa dos estados? Se a Câmara usurpou esse papel, para que o Senado?

• O Senado é em larga parte biônico. "Biônico" era o apelido, na ditadura, do senador nomeado, invenção do regime para não perder o controle da casa. Eram senadores sem voto. Pois mais de vinte anos depois da redemocratização continuam a existir os senadores biônicos, agora na pessoa do "suplente", aquele de quem ninguém ouve falar na campanha eleitoral e, quando menos se espera, lá está, ocupando uma cadeira para a qual se votou em outro. Um caso recente é o do senador Euclydes Mello, do PTB de Alagoas. O eleito Fernando Collor saiu para dar uma volta e assumiu o primo suplente. Outro caso recente é o de Gim Argello (PTB-DF), que despontou para a vaga de Joaquim Roriz com um rico elenco de suspeitas sobre sua cabeça, mas que teve a posse assegurada pelo voto amigo do presidente Renan Calheiros. A presença dos biônicos deslegitimiza a casa.

• O Senado não cumpre deveres que lhe são específicos. Cabe-lhe com exclusividade aprovar as indicações de ministros do Supremo Tribunal, embaixadores e membros das agências reguladoras. É uma tarefa nobre e útil, que mais nobre e útil seria se fosse exercida com cuidado e competência. Não é o caso. Na aprovação da notória diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Senado comportou-se com a habitual leviandade, antes como carimbador das propostas do Executivo do que como poder verificador e equilibrador das decisões do outro.

A esses argumentos acrescentou-se, na semana passada, evidenciado em toda sua extensão, o mal do "clubismo". Por ser uma casa pequena, onde todos se conhecem bem, o Senado é ambiente propício às cumplicidades, à troca de favores e à venda de lealdades. Não foi outra a causa da absolvição de Renan Calheiros. O clube se fechou em torno dele (ou, pelo menos, a maioria do clube), num processo de escora mútua: eu protejo você hoje e você me protege amanhã, eu finjo que não vejo o que você fez e você finge que não vê o que eu faço, e vamos todos juntos, que o barco soçobra e se um cair ao mar corremos todos o risco de lhe fazer companhia. O clube é uma instituição malsã porque, em vez de ao estado e à nação, tende a servir a si mesmo, a suas trapaças e a suas malfeitorias.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Fluxograma do Renan

Não nos pronunciamos muito sobre o caso Renan, pois a revolta foi geral. Para não dizer que não falamos de flores, publicamos esse explicativo fluxograma do caso que recebemos por email.


DCE da Feevale realiza enterro do Senado

Na próxima segunda-feira (17), os integrantes do DCE da Feevale irão realizar uma atividade que simboliza o desgosto de toda a nação após a vergonha da absolvição do senador Renan Calheiros, que continua a exercer seu mandato livremente. Durante os turnos da manhã e tarde, os estudantes realizarão o velório em memória da morte do Senado Federal. Às 19h30, em frente ao Prédio Lilás do campus 2, também será realizado o ato fúnebre, com direito a votos religiosos de encomendação do corpo.

"Esta é a única forma da sociedade civil organizada poder se expressar, já que as autoridades não encontraram um meio de punir um corrupto como Renan Calheiros. Definitivamente, o julgamento favorável a ele marcou o fim das esperanças dos brasileiros no trabalho do Senado Federal. Ele perdeu seu valor", afirmou o presidente do DCE, Marcus Carpes.

Os atos religiosos coincidirão com o horário de início da palestra que o centro universitário vai realizar com três conhecidos parlamentares gaúchos: a deputada federal Manuela D´Ávila, o vereador Ralfe Cardoso e o deputado estadual Mano Changes.

Para mais informações, favor entrar em contato com:

Equipe DCE Feevale, nos fones 35868800 ramais 8714 ou 9021, e-mail DCE@dcefeevale.com.br.

-----------------------------

Nota de Falecimento

É com extremo pesar que o Diretório Central dos Estudantes da Feevale vem informar que, na tarde da última quarta-feira, 12 de setembro de 2007, veio a morrer, por falência múltipla dos órgãos, o Senado Federal.

O velório será realizado no dia 17 de setembro de 2007, nos turnos da manhã, tarde e noite no saguão do prédio Lilás do Campus II da Feevale, sito, RS 239, Bairro Vila Nova, Novo Hamburgo. O enterro será celebrado na mesma data e local às 19h.

Lamentamos o ocorrido e oferecemos aos familiares nossas condolências, bem como nossos mais estimados préstimos.

Novo Hamburgo, 13 de setembro de 2007.

Equipe DCE Feevale

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Bakunin falou, Bakunin avisou...


Istoé também levanta a discussão

Quanto mais avança a crise, mais a discussão sobre o fim do Senado começa a repercutir na mídia. Abaixo, artigo publicado na revista IstoÉ.





O SENADO DEVE SER ABOLIDO?
Cláudio Camargo

A pergunta, antes impensável, tornou-se inevitável depois dos recentes escândalos envolvendo o presidente da Casa, Renan Calheiros, e o ex-senador Joaquim Roriz, além das graves suspeitas que agora pairam sobre seu suplemente, Gim Argello. Senadores decentes, como Pedro Simon e Eduardo Suplicy, entre outros, estão visivelmente incomodados. A situação indignou o recém-chegado Jarbas Vasconcellos, que, recuperando sua verve da época em que era um "autêntico" do MDB, declarou que o Senado está "fedendo" e "se estrangulando como instituição". O Parlamento brasileiro seria melhor se fosse unicameral, como na Suécia, Dinamarca e Finlândia?

No Brasil, o Senado foi estabelecido com a Constituição de 1824, inspirado na Câmara dos Lordes britânica: era composto por senadores vitalícios, indicados indiretamente. Com a República, a Casa perdeu o viés oligárquico e passou a ser eleita, inspirada no modelo americano. Mas - diversamente do que ocorria nos EUA - aqui o Senado sempre foi mais um dique conservador ao voto popular do que expressão legítima da federação. Seu perfil permaneceu essencialmente imobilista durante o período democrático (1946-1964) e mesmo depois da Constituição de 1988, embora tenha conhecido grandes oradores à época da ditadura. Apesar de muitos escândalos que atingiram a instituição ao longo da sua história, apenas um senador foi cassado: Luiz Estevão, em 2000. Quatro outros renunciaram para não ser cassados: ACM, José Roberto Arruda e Jader Barbalho em 2001, e Joaquim Roriz agora.

Hoje, o Senado tem mais de uma dezena de integrantes envolvidos ou suspeitos de envolvimento em corrupção e outros crimes, mas a Casa age como se não fosse com ela. O fato de mais de 13% dos senadores serem suplementes não eleitos só agrava o problema. O dilema está colocado: ou o Senado se reforma ou sua extinção poderá se tornar uma bandeira popular.

Cláudio Camargo é Editorialista e editor da Revista ISTOÉ

Senadores reagem contra a proposta de Fim do Senado

Após as declarações do presidente do PT sobre o fim do Senado, começaram as reações contra a idéia. É interessante notar os argumentos, de que o Senado é "indispensável", de que "preservar o senado é defender a essência do que somos como nação". Realmente, nossa proposta de extinção vai exatamente nesse sentido, de não preservar a essência de corrupção, morosidade e burocracia que caracterizam a política brasileira.

Além disso, a relação casuística montada que a proposta de fim do senado como favorável de interesse a instauração de um terceiro mandato do presidente Lula é uma forma de desviar o foco da idéia.

Abaixo, matéria publicada pelo jornal O Globo sobre o assunto.



Fim do Senado: senadores de governo e oposição se unem contra proposta de Berzoini

Plantão | Publicada em 03/09/2007 às 20h16m
Maria Lima - O Globo







BRASILIA - O debate no plenário sobre o processo de cassação do presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) deu lugar nesta segunda-feira a uma reação veemente dos senadores presentes contra a proposta de extinção do Senado Federal, feita pelo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), deputado Ricardo Berzoini (SP), no congresso do partido nesse final de semana.

A reação foi iniciada pelo vice-presidente da Casa, o petista Tião Vianna (AC), em tom mais brando. Mas logo vieram ataques duros á proposta de senadores da oposiçáo, que acusam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT de tentar acabar com o Senado, onde o governo tem minoria, para levar adiante a proposta de Constituinte e aprovação de um terceiro mandato para o presidente da República.

Viana rebateu a proposta de Berzoini destacando que, com o fim do Senado, se quebraria o pacto federativo. Ele disse que a tese, além de ser um retrocesso, permitiria a perpetuação da desigualdade regional.

- Contra tudo isso, digo não! Preservar o Senado é defender a essência do que somos como nação, irmanados no projeto maior de construção da pátria com que sonhamos. Uma pátria que seja de todos e que possa contar com uma instituição respeitada, poderosa e legitimamente constituída - o Senado - , cuja vocação é a de promover o equilíbrio regional, condição primeira para o equilíbrio social. Este Senado é indispensável. Este Senado é insubstituível - criticou.

O ex-vice-presidente da República e presidente da Comissão de Constituição e Justiça, senador Marco Maciel(DEM-PE), lembrou que a proposta não vingaria, porque o pacto federativo é cláusula pétrea na Constituição de 1988.

- A Constituição de 1988, entre os seus dispositivos, disse que não se admitirá emenda tendente a abolir a Federação. Via de conseqüência, não se pode admitir extingüir o Senado. Espero que idéias nesse sentido não prosperem - disse Marco Maciel.

O senador Mão Santa (PMDB-PI) era um dos mais revoltados. Disse que a proposta foi feita por Berzoini sob inspiração de José Dirceu, com base nos modelos autoritários de Cuba, Venezuela, Peru, Bolivia e outros que querem se perpetuar no poder.

- Então, é isso que eles querem: fechar o Senado, porque essa é a última resistência do Brasil. Sabem o que eles querem? São 24 mil "aloprados" que não sabem trabalhar, não estudaram, são vagabundos e entraram nomeados. Estão ganhando R$ 10.448, o melhor deles, e essa turma quer continuar. Acho que Luiz Inácio está delirando, porque não acredita que se tornou presidente. Mas esses 24 mil, que nunca trabalharam, que são vagabundos. E o Brasil sabe que são ladrões, que são corruptos. Estão pressionando pelo terceiro mandato. Todo mundo viu a propaganda imoral do "três", do Banco do Brasil. Aquilo, nós que sabemos psicologia e neurolingüística sabemos que é subliminar, para ficar no subconsciente "três", "três", "três", e entrar o Luiz Inácio. Como fez o Chávez recentemente - disse Mão Santa.

O tucano Papaléo Paes (PSDB-AP) também acusa o PT de estar querendo fechar o Senado porque é onde o governo nào tem maioria, e assim poderia prosperar a idéia da mudança na Constituição:


- Isso não tem outra intenção senão a de realmente transformar esse governo Lula. Temos que ficar atentos, de olhos abertos, para que isso não aconteça. Nessa Casa, o presidente da República não pinta e borda, como acontece em um Parlamento com mais de 500 Deputados. Essa Casa é uma resistência à ditadura do Sr. Lula - reagiu Papaléo.

O senador Marcelo Crivela (PRB-RJ) disse que esse tipo de proposta não pode ser feita durante um processo de crise como o que vive o Senado.

- Meu Deus, se não há perspectiva histórica nessa proposta, será por que vem de um líder tão importante a idéia de fechar o Senado? Será que é pelas crises por que passamos agora, com o presidente da Casa sendo submetido ao Conselho de Ética? Eu acho que esses momentos não devem servir de base para decisões intempestivas que vejam o momento e não a retrospectiva - disse Crivella.

domingo, 9 de setembro de 2007

PT defende o fim do Senado

Ainda estamos estudando o impacto das declarações do presidente do PT durante o 3º Congresso Nacional desse partido. Matéria abaixo foi publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 01 de setembro.

Alguns comentários no blog nos acusaram de sermos "vermelhos" e após essa declaração a relação parece ser mais óbvia. No entando, nunca conversamos com ninguém do PT, muito menos entendemos essa como uma proposta partidária. Entendemos como uma proposta que vem de anseio aos desejos de muitos brasileiros como nós.

Berzoini diz que PT vai debater constituinte e extinção do Senado

REGIANE SOARES
da Folha Online

O presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), defendeu hoje a abertura de um debate sobre a convocação de uma nova assembléia constituinte para discutir exclusivamente a reforma política. Uma das propostas --que deve ser debatida no 3º congresso do PT-- prevê que o país tenha uma única Câmara Legislativa e a extinção do Senado.

"O PT defende que o capítulo político [da Constituição] seja discutido amplamente pela sociedade para corrigir alguns vícios que a Constituição de 1988 estabeleceu em relação ao sistema político", disse ele no congresso, que termina domingo, em São Paulo.

Para Berzoini, o sistema único de representação no Congresso corrige as desigualdades do atual sistema. "No nosso entendimento, [a unicameralidade] é mais produtiva para a democracia. Agiliza os processos e reproduz as vontades do povo. Hoje, os Estados são representados de forma desigual. Na Câmara, um pouco desigual. E no Senado, profundamente desigual."

A declaração inicial de Berzoini gerou polêmica e, por meio de sua assessoria, ele recuou e disse depois que não defende a extinção do Senado, mas sim o fim do poder revisor da Casa. No entanto, ao final da abertura do congresso, ele disse que falar em extinção do Senado no país é sempre complicado.

Segundo ele, a Câmara Única Legislativa existe como resolução dentro do PT desde que o partido foi fundado. Berzoini afirmou que há tendências internas do partido que discutem esse tema.

O presidente do PT afirmou que existem duas propostas em discussão sobre o tema: uma prevê a extinção do Senado e a outra a manutenção da Casa como fórum de decisões federativas.

Reforma política

Entre as possíveis distorções citadas por Berzoini no sistema político estão o financiamento privado de campanhas eleitorais, fidelidade partidária e o sistema bicameral --Câmara e Senado.

"Entendemos que o que representa a sociedade é a Câmara dos Deputados com sua votação pelo povo com proporcionalidade total. E não com a proporcionalidade limitada que temos hoje", afirmou o presidente do PT.

Para ele, é preciso equilibrar os interesses dos Estados das questões federativas. Berzoini disse que quer propor a discussão para mobilizar a população e produzir uma vontade nacional para uma nova constituinte. Ele não fixou data para essa constituinte. "Isso seria precipitar um debate. Está só no debate."